O que podia eu fazer?

by - agosto 23, 2017

Veio, ora, até bem próximo de mim com os cabelos bagunçados, olhos afoitos. Que podia eu fazer? Cruzei os braços, levantei o rosto, encarando: vieste correndo? tens pressa, é? Assustado com as palavras, recuou um passo atrás. Enxugou o suor do rosto, abriu a boca para falar alguma coisa que o fez pensar melhor e escolher não dizer. Repetiu o gesto algumas vezes. A mão apontava para mim, a boca nada dizia. Se fosse outro dia, eu teria rido dessa situação. Delicadamente, girei saindo sem qualquer remorso daquele encontro fatigado. Ainda assim, consegui ouvir sua respiração. Seu coração.

Isso de nada adiantaria. Me falaria o que? Não, eu não ouviria aquele mesmo discurso outra vez. As palavras se desgastaram de muitas formas. Tive a impressão de que hoje seria diferente - mas eu não ficaria ali para ouvir. O que devia eu fazer? Segui em passos lentos, cada vez mais lentos. Passos que refletiam o meu estado de dúvida. Parei. Decidir voltar. Voltaria na esperança de ouvir algo diferente. Mas ouviria?

Agora estávamos novamente olhando um para o outro. Alguns metros de distância. Me voltei para ele, mas não sai do lugar. Cruzei novamente os braços. Eu não tinha a menor ideia do que fazer. Passei a observar as coisas ao redor: as folhas dançavam nos galhos das árvores, ao som da música que ecoava dos diversos pássaros que por ali voavam. O vento completava a harmonia. Harmonia densa, tensa. Incompatível com a leveza das folhas. Nessa distância eu via sua boca se mexer. Sem qualquer som de sua voz, pude entender que ele dizia: Tenho algo que é seu.

Geralmente ele se aproveitava do meu instinto curioso para me chamar a atenção. Ah, mas não dessa vez. Desta vez eu estava convicta. Convicta de que, por mais que eu não soubesse os motivos que me faziam decidir por isso, eu ficaria longe dele, e afastaria ele de mim. Deixe no chão, quando você for embora eu pego de volta, eu disse, apoiando o corpo sob uma perna, as mãos na cintura. Ele sorriu. Piscou uma piscadela lenta, e, ainda sorrindo, virou-se e partiu. 

Eu, que na véspera havia dormido de tanto chorar, tinha os olhos secos, vermelhos, inchados. Respirei como quem medita. Segurei minhas próprias mãos. Soltei as mãos e os braços. Tornei a segurar. O que fizeste?, pensei. Uma lágrima escorreu. Fiquei admirada com a capacidade do corpo humano em produzir lágrimas. Sorri. Sorri admirada. Sorri feliz por causa de uma lágrima! Eu renascia! 

Meu desejo mais íntimo: renascer, recomeçar. Claro, naquele momento eu não sabia o que isso significava, nem no que implicaria. Também não sabia que caminho seguir, só sabia que não queria voltar. Então mesmo que eu ficasse ali parada, com um misto de curiosidade e remorso, estaria feliz com a decisão. Esperançosa decisão. Seguia acreditando. Sonhadora.

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Este post faz parte do desafio do Café com Blog. No desafio Imagem/Palavra, eu ganhei a palavra "VIAGEM", e pra fugir um pouco do clichê e escrever algo sobre viagem, eu escrevi um conto onde cada parágrafo começa com uma das letras da palavra. Espero que gostem! 😊 



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2 comentários

  1. Adorei seu post super criativo curti seus escritos e a narrativa em muitas situações renascer é necessário para seguir, bjs.

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