Sobre pessoas na madrugada

by - agosto 18, 2017

Imagem Pixabay



Essa noite passávamos um momento em família, meu namorado e cunhado, cozinhando, tomando um vinho, conversando e fazendo música, quando decidimos sair de casa para comprar mais alguma coisa para beber. Já era madrugada, fazia um pouco de frio, e o ar estava bem úmido por conta da chuva dos últimos dias. Nós paramos em um posto de gasolina, e após divagarmos um pouco sobre festas universitárias e o preço das coisas, pegamos algumas cervejas e ficamos por ali mesmo conversando. Depois de um tempo um homem, com um hipopótamo de pano em baixo dos braços, se aproximou de nós. Era um morador de rua, que, muito humildemente, nos disse que queria algumas moedas para comprar uma pinga. Eu sempre aprecio quem fala a verdade, e ele disse: não quero roubar, nunca fiz isso, também não vou enganar vocês: eu só quero tomar uma pinga pra conseguir dormir; eu encontrei esse hipopótamo no lixo, e ele me olhou com olhos tão tristes, que eu não pude abandonar ele. é tudo o que eu tenho. as vezes, é melhor a gente tomar uma pinga até dormir, do que ficar acordado pensando besteira.

Aquilo tocou de um jeito muito estranho: é melhor tomar uma pinga e dormir do que ficar acordado pensando besteira! Eu não faço ideia do que é a vida na rua. No meu antigo blog, o Grão de Estrela, eu compartilhei uma conversa que eu tive com um morador de rua, em 2012, e que foi inexplicavelmente emocionante. José Carlos o nome daquele homem que veio até mim dizendo que ia se matar. Na noite de ontem, assim como naquela tarde em 2012, eu fiquei sem palavras: eu apenas ouvia e olhava profundamente em seus olhos tentando demonstrar algum tipo de sentimento que pudesse oferecer a única coisa que de fato serviria para alguma coisa: atenção e respeito.

Adalto era seu nome. Foi ministro de alguma igreja. Esta há 10 anos e três meses na rua - três meses sem tomar banho, segundo ele. Ele só tinha aquele hipopótamos, um cordão e um objeto que parecia um brinquedo de cachorro. Roupas sujas, dentes faltando, cheiro de quem tomou chuva, e todas as passagens bíblicas na ponta da língua. Ela falava sobre as estruturas de um lar, sobre a importância de ter alguém que fosse a base, que sustentasse a sua família, depois parou, se aproximou de mim e disse: Jesus esta curando alguém na sua família. Os médicos não podem curar ela, mas Jesus esta cuidando dela. Ela vai andar, ela vai ser curada. Nesta hora meus olhos se encheram de lágrias e eu disse: eu sei. Ele respondeu: você sabe de quem eu estou falando né? Parecia que ele realmente sabia, parecia que ele podia mesmo ver.

Acabamos comentando que estávamos comemorando uma conquista do meu cunhado, e ele se virou para o meu cunhado e disse: você merece, não importa que o mundo não acredite no que você faz, você precisa fazer isso, esse é o seu caminho. E, de novo, parecia que ele sabia o significado daquela conquista.

E no meio de outra conversa, virou-se certeiro para o meu namorado, perguntando se éramos casados, e ele disse brincando que sim, que ele já estava amarrado em mim, que não tinha mais volta. O homem riu também e depois disse: isso é ótimo, fica com ela porque ela carrega uma semente muito especial. Olhou para mim como quem pisca, eu ri e disse que não tinha semente nenhuma dentro de mim, ele respondeu: mas você sabe do que eu estou falando né? Eu disse que sim, que ela estava ao meu lado, só esperando a hora certa, e ele respondeu, sério: então você sabe do que eu estou falando.

Eu não sei explicar, mas parecia mesmo que ele sabia o que estava falando, como se tivesse algum tipo de mediunidade que nos enxergava para além do plano físico, como se, em troca da atenção que nós demos para ele, ele quisesse nos agradecer com palavras que mostrassem que estamos no caminho certo, fazendo a coisa certa, por mais absurda que nossas ideias pareçam ser. Quando meu irmão era pequeno os médicos diziam que ele não ia andar, mas ele andou. A fé que meus pais têm opera milagres na vida do meu irmão constantemente. Meu cunhado acabou de conseguir uma bolsa de doutorado, depois de passar um ano sendo questionado sobre trabalho e fazer dinheiro como qualquer outra pessoa. Ele é filósofo, e não foi feito para este mundo tão cheio de regras e amarras. Depois de alguns conflitos pessoais eu rezei muito pedindo a Deus para me encontrar com a pessoa que seria pai da minha filha - a filha que um médium uma vez me disse já estar ao meu lado, ansiando para nascer. E cada dia que passa eu sinto como se meu namorado fosse a pessoa que aceitou a missão de ser seu pai. Parecia muito. Parecia que ele sabia mesmo de tudo isso.

Antes que um frentista que trabalhava no posto pedisse para que a gente se retirasse de lá - não sei se ele só estava sendo indelicado, ou achou que o homem estava nos incomodando e estava tentando nos ajudar a nos livrarmos dele - o homem quis oferecer o cordão para o meu namorado. Ele ia contar uma história bíblica sobre algum cinto, e meu cunhado, que foi seminarista, disse que sabia do que se tratava. Então o homem não contou a história, meu namorado também não pode aceitar a oferta. Mas agora passei a procurar na internet para saber do que se trata, e conheci a história de Jeremias e a parábola do cinto apodrecido. E ela nos ensina muitas coisas: 1) confie e obedeça à Deus, 2) mostre que você crê, 3) sustente a sua fé em uma rocha, ou seja, tenha uma fé sólida, e por fim 4) saiba que se você enterrar a sua fé, ela não adianta de nada, você precisa fazer uso dela. 

Não sei que conclusões tirar ainda. O homem foi embora, sem o dinheiro para a pinga, apenas com uma cerveja que nós demos a ele. Entramos no carro e voltamos para a casa, em silêncio, talvez refletindo e revivendo o que aconteceu, talvez fazendo planos, ou simplesmente com sono. Mas isso tudo mexeu comigo. Mexeu porque eu tenho certeza que, embora a vida na rua obrigue as pessoas terem certa malícia, que eu espero nunca precisar conhecer, aquele homem não parecia querer se beneficiar da gente de qualquer forma: nem simplesmente para nos enganar com algumas palavras ditas com muita segurança, nem para se divertir com os nossos olhares e ouvidos curiosos. Ele sabia de tudo o que estava falando, e acreditava em tudo aquilo também.

E eu só pude pensar: lembre-se de cumprir a sua missão. Tenha fé, acredite, obedeça, e não tenha medo ou vergonha de seguir no seu caminho.

Eu sei, não é fácil, e eu não tenho essa fé tão sólida.

Mas eu preciso ser constantemente lembrada.

Gratidão, Adalto.


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2 comentários

  1. Que linda reflexão! Moro em cidade pequena, então não costumamos ver moradores de rua por aqui, mas imagino o quanto seja difícil suas histórias de vida, principalmente quando pensamos no que pode tê-los levado a morar na rua. Seu texto me fez pensar em muitas coisas. Parabéns pela profundidade do que escreve.

    http://lenabattisti.blogspot.com.br/

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    1. Sim, eles sempre tem histórias impressionantes! É sempre muito bom ouvir!
      Obrigada pela visita!

      <3

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