Sobre nossa história (parte I)

by - janeiro 05, 2018

Imagem: PixaBay


Não sei bem porque, mas decidi escrever essa história.

Eu já tinha reparado nele duas vezes. A primeira foi no dia da apresentação dos calouros, no início do ano. Quando os alunos do primeiro ano entram na Orquestra, geralmente são chamados no palco da regente para dizerem quem são, o que tocam, e fazer alguma gracinha. A primeira lembrança que tenho dele é de quando ele subiu no palquinho. Ele tinha um jeito descontraído de quem quer disfarçar a timidez, misturado com um movimento de corpo meio vida loka. Jamais saberei explicar como é isso, mas é real. Assim que eu olhei para frente e vi ele falando, tive um súbito encantamento: achei ele bonito demais. Seu jeito, suas roupas, seu cabelo, até a piada batida... Pensei: preciso ficar longe. Reação típica de quem se auto-sabota, mas eu tinha justificativa para isso. 

No ano anterior eu havia me livrado de um relacionamento quase abusivo, e naquele ano, eu estava determinada a ficar sozinha para me limpar das lembranças ruins.

Então quando pensei em ficar longe, virei o rosto, levantei, fui fazer outra coisa. Não liguei para os outros que se apresentavam, e também não o procurei nem com olhares. Tão focada eu estava em não me interessar por ninguém, que por muitos meses, não me lembrei dele.

Na segunda vez, durante a festa junina da Orquestra, ele estava no meio do grupo de alunos que animava a festa, tocando algumas músicas, não me lembro quais. Eu estava sentada no banco, um pouco pilhada com um evento que eu estava organizando, e resolvi distrair a cabeça, prestando atenção naquele grupo que tocava. E com o mesmo jeito tímido e desinibido ele estava lá. E ele era tão bonito! Tão bonito que me escapou, e eu comentei com uma amiga que estava do meu lado. Ela, muito séria e polida, porque esse é o jeito dela, disse que ele era a minha cara. Eu olhei de volta e fiquei me perguntando: será que é mesmo?

Engraçado que o fatídico dia em que trocamos olhares esta desconectado no tempo e no espaço. Pode ter sido nesta mesma festa junina, mas também pode ter sido em outro dia. O certo é que estávamos há uma semana do evento que eu organizava, e eu me encontrei com os organizadores, informalmente, e conversávamos sobre o evento ao mesmo tempo em que perdíamos o foco e falávamos sobre outras coisas. Nós, em uma rodinha em um lado, ele, um pouco mais a frente, em outra rodinha. Eu, sentada, pernas cruzadas, sorridente. Ele, em pé, braços contidos, sério. Não estávamos tão próximos, mas estávamos de frente um para o outro. Reparei na sua seriedade e fiquei verdadeiramente impressionada com isso. Tão impressionada que tenho a sensação de ficar olhando para ele, descaradamente. Eu apenas piscava algumas vezes, para não dar um ar tão assustador. Mas eu já estava completamente alheia à nossa conversa.

Senti um calor dentro do peito quando, de repente, percebi que ele também me olhava.

Ele me olhou e não parou mais de olhar. E a gente ficou se olhando. Eu jamais saberia dizer por quanto tempo. Da mesma forma, não saberia dizer se as pessoas a nossa volta chegaram a reparar. Mas foi sublime. E foi sereno, ao mesmo tempo.

E a sensação foi tão gostosa, que eu percebi então que eu não poderia mais ignorar que ele existia. E, porque nos olhamos tão profundamente, havia uma alegria em mim, porque ele também sabia que eu existia.

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