Sobre desistir

by - setembro 11, 2017

Eu nunca fui do tipo de pessoa que desiste. Talvez porque eu nunca tivesse tido muitas dificuldades na vida. Se as coisas não são muito difíceis, se não exigem exagerado de você, é normal encarar tudo e seguir em frente. Tenho lembrança de três grandes acontecimentos que me fizeram desistir: quando eu tinha cerca de 9 anos, desisti do ballet porque eu precisei trocar de turma, e isso me gerou muita ansiedade, e na época nem se falava de ansiedade ou crise de pânico (coisas que eu sempre tive, e só descobri muito recentemente). Alguns anos depois, desisti do karatê depois de ter levado um soco no estômago e ficado sem ar - eu poderia ter percebido que eu precisava aprender a me defender, mas não tava afim. E, no início deste ano, quando eu desisti do conservatório: uma tentativa desesperada, embora soe contraditório, de não desistir da música. Quando eu decidi fazer faculdade de música, eu sabia que ia ser difícil: eu teria que mudar de cidade, teria que conhecer pessoas diferentes, teria que me virar sem minha família, teria que estudar muito... Depois teria que encontrar um trabalho, teria que me sustentar com a música... etc etc. No fundo no fundo, isso nunca me assustou de verdade, e nada disso foi muito difícil para mim. Terminei a graduação, passei no mestrado, tive bolsa, terminei o mestrado, passei em processo seletivo, passei em concurso, nunca me faltaram alunos particulares para dar aula... Ou seja: emprego estável, salário estável, rotina tranquila e flexível - tudo o que um músico dificilmente consegue ter. Esta tudo bem. O problema é que, na música, a gente não pode parar de estudar. Não pode mesmo, nunca. Você não pode deixar o seu instrumento de lado. Mas foi o que eu fiz: eu deixei meu instrumento parado por quase 3 anos, e quando eu fui voltar, aquilo não fazia o menor sentido. Mesmo estudando música, mesmo trabalhando com música. Não fazia sentido, mas eu insisti, tentando reencontrar aquilo que um dia me fez desejar viver de música. Nada, não encontro nada. Troco de professor, troco de lugar, troco de instrumento. E mais um monte de nada! Um vazio completo onde nada, absolutamente nada me motiva a pegar qualquer instrumento que seja e estudar ou tocar, ou fazer um barulho qualquer que seja. Trabalhar com música me pressiona: meu trabalho grita o tempo todo que eu não sou boa o suficiente, meus alunos me lembram o tempo todo como eu tenho que voltar a estudar. Mas não existe um pedaço de mim que deseja isso. Eu gosto do meu trabalho, eu adoro dar aulas, realmente eu não me imagino trabalhando com outra coisa, e eu sei que voltar a estudar música, voltar a estudar piano, ou começar um novo instrumento, melhoraria a minha auto-estima, melhoraria a minha confiança e, consequentemente, melhoraria as minhas aulas. E o que eu faço? Nada, porque não existe nenhuma parte de mim que deseja isso o suficiente para contornar todas as dificuldades, os traumas, as frustrações, as ansiedades e medos. Estou no limite de desistir. Mas se eu desisto da música, o que sobra me mim?

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1 comentários

  1. Ai, Natalia... eu passei isso com a escrita e com o desenho. Fiquei anos sem fazer nenhum dos dois, até que resolvi sentar e voltar. Não tem uma receita ou um manual, é voltar mesmo sem muita vontade, daí a vontade vai chegando de fininho até se restaurar.

    Com amor,
    Bruna Morgan

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