Sobre a semana em que a bruxa má estava solta

by - julho 25, 2017

Sei que este blog as vezes tem uma carga emocional muito pesada. Mas faz parte do processo terapêutico não me importar com isso, e fazer dele meu escape; Meus blogs sempre foram assim, e nunca deram certo quando eu começava a postar coisas que eu achava que outras pessoas poderiam achar interessante. Então lá vai mais uma descarga negativa, pra tentar tirar um peso muito grande, um peso que quando chega a noite é trucidante.

Mas é que essa semana não esta sendo fácil. Não esta sendo fácil porque ela veio seguida de uma semana bem difícil. A semana passada foi muito corrida, muito trabalho, poucas horas de sono - exatamente 20 horas durante os sete dias!

Por que eu contaria a quantidade de horas que eu durmi na semana? Pra me preparar que quanto mais cansado meu corpo fica, mais intolerável a minha mente fica. Mas o domingo chegou e eu pude descansar. Não tanto quanto eu queria, porque, afinal, o corpo se acostumou a ter que levantar cedo, e a minha gata se condicionou junto. Ou eu levanto, ou ela destrói a casa, e por aí vai.

Mas ainda assim o domingo chegou, e finalmente, embora tenha acordado cedo, era domingo, o dia sagrado para não fazer nada. E era isso o que eu faria. Engraçado que eu não me lembro, mas tenho a impressão de ter voltado a dormir depois de acordar, e de desejar arrumar a casa, mas sinceramente não me lembro do que eu fiz.

Só lembro que pouco tempo depois eu estava aos prantos, sentada no chão, escondendo o rosto, desejando sumir de todas as maneiras possíveis desta casa. 

Acordar segunda feira foi horrível. Primeiro porque eu tinha trabalho a fazer, segundo porque me faltava motivação, terceiro porque a tristeza deitada do meu lado me puxava toda vez que eu ousava abrir os olhos. Realmente, não foi possível trabalhar. Durante o dia todo. Minha sorte ter horário flexível e poder trabalhar em casa.

Fui fazer o que eu sempre faço quando a foça esta muito funda e você não tem mais como sair: faxina. fazer faxina tem aquele poder de te fazer acreditar que quando você arrumar toda a sua casa, automaticamente todo o seu interior ficará limpo e arrumado. A gente sabe que não é sempre assim, mas a gente acredita.

Eu não queria chocar com essa imagem. Mas foi isso que eu vi assim que eu sai no quintal de casa. Obviamente, entendi isso como um sinal de que sim, realmente, estava tudo uma merda mesmo, e até ratos estão entrando em casa (coisa que nunca aconteceu), tamanho  desalinho emocional. E pior: eles morrem. Eles morrem porque não tem como viver no meio dessa profunda mágoa, dessa descrença no outro, desse desejo de desistir de tudo e ficar simplesmente chorando, dormindo, anestesiada...

Mas daí eu lembrei que mesmo na morte há vida, e que eu precisava correr atrás de dar um jeito na minha vida. Eu já tinha desistido de prestar o doutorado, mas o Universo deu mesmo um jeitinho de me fazer repensar e não desistir com o projeto pronto. Quer dizer, quase pronto. E lá vai eu pensar no mundo ideológico que é a universidade e tentar justificar (até mesmo para mim) que meu projeto é importante por todos aquele motivos. Mas tudo bem, porque apesar do meu desencanto, eu fiquei novamente animada em voltar a estudar, a pesquisar coisas que eu gosto e tentar contribuir para o fortalecimento da minha área. É, por mais nerd ou alienante que pareça, eu realmente gosto do trabalho que faço, e tenho muito orgulho dele - mesmo que faça parte dele momentos bem chatos e desestimulantes.

E nada melhor do que ocupar a cabeça com trabalho pra esquecer das merdas que a via te trás! 

Daí que quando a moça pediu que eu desse um sorriso, pra não ficar tão séria, para tirar a foto 3x4, eu até esqueci que a vida tava uma merda gigante, e saí com esse sorrisinho simpático. Tão simpático que ousei colocar a foto no whastapp como perfil, e me senti bem melhor quando uma amiga disse que fotos 3x4 são fábricas de monstrinhos, mas que a minha tinha ficado ótima. Sim, o dia estava melhorando!

E rolou até uma boa ação porque quando fui entregar os documentos do doutorado apareceu uma moça um tanto quanto perdida, que havia esquecido um documento, precisava voltar para pegar, teria que trazer de novo dentro de 30 minutos, e eu acabei por dar carona pra ela. Levei ela até a casa dela, depois levei na universidade, depois levei ela de volta. Senti a gratidão dela me preenchendo, preenchendo os vácuos de solidão.

Mas as noites são sempre muito fortes, e como se não bastasse a gripe, a tristeza, a correria, e os trabalhos pendentes, somou-se à tudo uma dor no peito, igual essa que eu estou sentindo agora, que, ontem, me dizia: não fuja da dor, sinta-a em sua plenitude, permita-se sofrer. E eu me permiti lembrar de tudo. Mas além da tristeza e inconformidade, veio também uma profunda incompreensão de tudo o que estava acontecendo. Sabe quando você fica tão chocado com algo que é tão inimaginável que você não consegue nem encontrar mecanismos pra entender o que aconteceu, quanto mais digerir, quanto mais aceitar, quanto mais conviver....?! Isso revolva, revolta muito. Eu gosto de resolver as coisas: pronto, ta resolvido. Mas como resolver o não digerido? O inatingível? 

Só com muita raiva no coração pra você se mover. Porque a punhalada no peito te derruba, a tristeza te derruba... Só a raiva te mantém em pé. Mas a raiva é um péssimo guia. E engraçado que quanto mais eu remoo, relembrando pra contar essa história, mais o peito dói. Cada movimento, dói. Cada respiração, dói.

Daí que para a terça feira só me restava acordar pedindo desculpas. Se a gente não entende o que aconteceu, se você é desconsiderado por estar triste pelo o que aconteceu, você começa a entender que a única solução é você pedir desculpar para ver a direção muda. E até mudou, um pouco. Mas o problema que quando você não tem certeza pelo o que pede desculpas, e quando você sabe que o seu pedido de desculpas não vai mudar o que te trouxe essa mágoa, você fica repensando em tudo.

Se você é orgulhoso, como eu, vai dizer foda-se, eu não preciso me submeter a isso. Se você é inseguro, como eu, você vai dizer, ok, eu me submeto. Mas se você é ansioso, como eu, vai ficar paralisada, olhando para o céu, desejando desesperadamente uma resposta vindo do além, uma resposta que te dê o passo-a-passo de tudo, absolutamente tudo, que você precisa fazer, daquilo que pode esperar dos outros.

Mas ainda é terça feira. E amanhã, quarta, será um outro dia. Um dia em que eu vou precisar sair de casa, vou precisar sair da cidade. Embora isso me aterrorize também, no fundo eu estou desejando estar em outro lugares onde eu precisarei disfarçar a minha tristeza. 

Vai que pelo hábito de esconder, eu acabe esquecendo de verdade... Vai que?!


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