Sobre o tempo errado das escolhas

abril 07, 2017
Imagem: We It
"Como sobreviver ao conservatório?" é o que eu penso toda quinta-feira a noite, quando eu deito para dormir desejando que a sexta-feira não chegue nunca. Para a minha desgraça, sempre chega, e chega junto com uma angústia tremenda. Uma angústia misturada com uma sensação ridícula de perda de tempo. Mas se fosse só perda de tempo, não sei, acho que eu aguentava. Se fosse só perda de dinheiro, pode ser também que se dava um jeito. Mas o que rola de mais bruto é uma perda de energia e equilíbrio emocional, duas coisas tão raras para mim que eu fico me interrogando do porquê que eu me permito fazer isso comigo mesma! Sim, eu que sou a rainha da autossabotagem, não consigo mais encontrar uma desculpa que me engane de que continuar mais um ano é a decisão certa a fazer. Os motivos existem: pô, só mais um ano, termina isso logo! Ou, aproveita o que você puder, e deixa de lado o que não for tão legal. Tem aquele quem sabe um diploma de técnico em música não pode ser útil algum dia?! Já pensei nos prós, que inclui a possibilidade de ver meus pais e meu irmão toda semana, e os contra, que na verdade não existem. Pois é, não existem contras terminar o conservatório. Terminar o conservatório em si não é ruim. Ruim é passar uma semana inteira odiando ter que fazer isso. Ruim é sentar na frente do piano e começar a chorar de desespero porque não se tem vontade nenhuma de tocar. Ruim é passar a chave no piano e esconder de você mesma porque você prefere ter distância do que desistir do piano para sempre. É complexo: eu gosto de tocar, eu sei que eu preciso estudar e melhorar em muitas coisas, eu adoro dar aulas de piano e amo cada um dos meus alunos que me motivam a procurar ser melhor. Mas eu odeio não poder escolher o que eu vou tocar, eu odeio ouvir "puxa, que pena que você não gosta dessa peça, o que será que você vai fazer pra conseguir estudar ela mesmo sem gostar?", odeio ouvir "mas você dá aula? como assim, você nem se formou no técnico ainda!" (licenciatura em música ta aí pra isso, meu bem). Música não é isso, estudar piano não é isso! Isso é tudo o que eu sempre critiquei, é o que eu falo para os meus alunos da graduação não serem: professores e gestores (sim, porque ouvi horrores de gestores também) que matam qualquer desejo de viver de música, obrigando as pessoas a cumprirem um repertório que não faz o menor sentido, estipulando prazos, fazendo comparações, e falando na sua cabeça o tempo todo que você é um bosta por não estar fazendo o seu melhor. O meu melhor com certeza não esta sendo, por pura falta de vontade, por acreditar zero nesse modelo tecnicista e arcaico de ensino de música. Não eu não sou contra técnica, eu não sou contra estudar 8 horas por dia. Mas eu não quero fazer isso, este não é o meu momento para isso. Eu achei que pudesse ser, mas isso tem me matado. Só que infelizmente eles não aceitam nada fora do tradicional, e eu to cansada de fingir que tudo bem.

Nenhum comentário:

Comentar é espalhar amor ♥

Tecnologia do Blogger.